A descarbonização da arquitetura não é apenas uma tendência; é uma necessidade urgente face à crise climática. Os edifícios são responsáveis por uma fatia significativa das emissões globais, e em Portugal, onde o parque edificado é antigo e ineficiente, o potencial de mudança é enorme.
O setor da construção e os edifícios são responsáveis por uma fração muito significativa das emissões globais de gases com efeito de estufa. Segundo o UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), e 6º Relatório de Avaliação (AR6) do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), o setor representa cerca de 37% das emissões globais de CO₂ relacionadas com energia e processos, bem como mais de 34% da demanda global de energia.
A mesma entidade alerta que, até 2050, cerca de metade dos edifícios que existirão ainda não foram construídos — o que revela a importância de mudar já as práticas construtivas.
A "neutralidade carbónica" é frequentemente confundida com descarbonização da arquitetura. A neutralidade implica equilibrar emissões com remoções (como mediante florestas ou tecnologias de captura), enquanto a descarbonização da arquitetura se foca na redução direta. Em arquitetura, isso traduz-se em estratégias como a economia circular: reutilizar materiais, projetar para desmontagem e priorizar a reabilitação sobre a construção nova, mas ter uma casa sustentável. Conceitos como "arquitetura passiva" – que usa design para minimizar necessidades energéticas, como orientação solar e isolamento natural.
DEFINIÇÕES ESSENCIAIS - DESCARBONIZAÇÃO DA ARQUITETURA
Para descarbonizar a arquitetura, precisamos primeiro entender o que isso significa. A descarbonização refere-se ao processo de redução e, idealmente, eliminação das emissões de gases com efeito de estufa associadas à construção, operação e demolição de edifícios. Não se trata apenas de cortar o carbono; envolve uma transição para sistemas de energia limpa e materiais sustentáveis.
Um conceito central é o de "edifício de emissões zero". Segundo definições internacionais, um edifício de emissões zero é altamente eficiente, não emite gases no local durante a operação e é alimentado exclusivamente por fontes de energia renovável. Isso inclui três pilares: eficiência energética extrema, ausência de combustíveis fósseis no local e integração de energias como solar ou eólica. Em Portugal, este conceito alinha-se com diretivas europeias, como a Diretiva sobre o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), que promove edifícios quase zero energia (nZEB).
| Termo | O que significa / por que importa |
| Carbono incorporado (embodied carbon) | São as emissões de CO₂ (ou equivalente) associadas a tudo o que precede a ocupação do edifício — extração de matérias-primas, fabrico de materiais, transporte, construção, montagem. Este carbono é “embutido” no edifício desde o início. Diferente do carbono operacional, está praticamente “pagoplanetado” no momento da construção. |
| Carbono operacional | Emissões resultantes do uso do edifício: aquecimento, arrefecimento, iluminação, ventilação, manutenção, consumo energético ao longo da vida útil. |
| Avaliação do Ciclo de Vida (LCA – Life Cycle Assessment) | Método de análise que quantifica os impactos ambientais (incluindo emissões de CO₂) ao longo de todo o ciclo de vida do edifício — desde a extração de matérias-primas até à demolição ou reutilização. Permite comparar opções construtivas e validar escolhas com dados concretos. |
| Whole-Life Carbon (carbono de “toda a vida útil”) | Abordagem que considera tanto o carbono incorporado quanto o operacional — ou seja, todas as emissões associadas ao edifício desde a sua criação até o fim da sua vida (incluindo demolição, manutenção, reparações, etc.). |
| Economia Circular na Construção | Modelo de produção e uso de materiais que privilegia reutilização, reciclagem, durabilidade, desmontabilidade — ao invés de produtivismo linear (extrair → construir → demolir). Esta abordagem pode reduzir significativamente o impacto ambiental de edifícios e infraestruturas. |
O PAPEL RELATIVO DO CARBONO INCORPORADO VS OPERACIONAL
Em muitos edifícios convencionais, o carbono operacional (uso energético) ainda representa uma parte significativa das emissões ao longo da vida. Mas à medida que os edifícios se tornam mais eficientes (isolamento, energia renovável, sistemas eficientes), o peso relativo do carbono incorporado aumenta. Historic England
Algumas análises recentes mostram que, dependendo do tipo de edifício, dos materiais e da sua vida útil, o carbono incorporado pode representar entre 9% e 80% do total de emissões de ciclo de vida. MDPI
Em edifícios de betão armado (dados através de um caso-estudo recente), um estudo identificou que grande parte das emissões de material vêm do aço e do betão — responsável por 98,45% das emissões de produção de material em alguns cenários. ScienceDirect

ESTRATÉGIAS E BOAS PRÁTICAS PARA DESCARBONIZAR NO PROJETO E CONSTRUÇÃO
Usar LCA / Whole-Life Carbon desde o início
— Incorporar a avaliação do ciclo de vida no planeamento e conceção do edifício permite comparar cenários e optar por soluções mais sustentáveis. Menos do que 1% dos projetos usam esta abordagem de forma completa, segundo relatório de World Business Council Sustainable Development.
Escolha de materiais de baixo carbono ou renováveis
— Priorizar madeira (madeira engenheirada, por exemplo), materiais reciclados, betões com adições cimentícias de menor impacto, etc. A mudança da “paleta de materiais” pode reduzir drasticamente o carbono incorporado.
— Evitar sempre que possível, materiais com alta intensidade de carbono como aço convencional ou betão com grande quantidade de cimento “virgem”, sobretudo quando existem alternativas.
Projeto bioclimático e eficiência energética
— Mesmo com materiais de baixo impacto, é fundamental reduzir o consumo energético no uso do edifício: isolamento térmico, orientação solar, ventilação natural, sistemas de energia renovável, etc. Isto reduz o carbono operacional ao longo da vida útil. ArchDaily
Abordagem de economia circular / reutilização / reabilitação
— Promover soluções desmontáveis, reuso de materiais, renovação em vez de demolição, prolongar a vida útil dos edifícios existentes. Isso evita “pagar” novamente o carbono incorporado de novos materiais.
Transparência e rastreabilidade de materiais
— Utilização de bases de dados de carbono, declarações ambientais de produtos (EPDs), documentação rigorosa — para quantificar e comparar o impacto real dos materiais usados.
PARADIGMA EXIGE UMA MUDANÇA PROFUNDA NO PAPEL DO ARQUITETO
Projetar não é mais só desenhar formas; implica compreender e antecipar o impacto climático das escolhas — materiais, métodos construtivos, durabilidade, manutenção, demolição.
O uso da LCA transforma o processo em científico e quantificável: o projeto passa a ser avaliado por kgCO₂e/m², não apenas por custo ou estética.
Um bom projeto com base em baixo carbono pode gerar benefícios ambientais a longo prazo e, em muitos contextos, também económicos — menores custos de manutenção, maior durabilidade, valorização patrimonial, resiliência.
A adoção de práticas circulares e materiais alternativos pode abrir novas linguagens arquitetónicas, promover inovação e antecipar regulações que cada vez mais exigem sustentabilidade;
A reabilitação de imóveis existentes é premente numa sociedade que carece de gestão de recursos, e operações como transformar um t2 em t3 para dar respostas a necessidade de espaços de utilizadores deve ser sempre equacionada antes de se partir para a construção de novas construções.

A DESCARBONIZAÇÃO COMO OPORTUNIDADE DE INOVAÇÃO E RESILIÊNCIA
Adotar a descarbonização como princípio orientador no desenho e construção de edifícios representa uma transformação profunda: não é apenas reduzir emissões, mas repensar a arquitetura como parte de um sistema ecológico e social.
Integrar LCA, priorizar materiais de baixo carbono, desenhar para eficiência e durabilidade, e adotar a economia circular são medidas que beneficiam o planeta — e, em longo prazo, os utilizadores, proprietários e sociedade.
Para o arquiteto do presente/futuro, isso exige novas competências, sensibilidade ambiental e coragem para questionar o “status quo” da construção. Mas os benefícios potenciais — do ponto de vista climático, económico e social — são enormes.
ESTRATÉGIA NACIONAL DE RENOVAÇÃO E EFICIÊNCIA ENERGÉTICA
O governo português aprovou a Long‑Term Strategy for Building Renovation (LTRS PT), com metas de renovação energética e transição dos edifícios existentes para o padrão de Nearly Zero Energy Buildings (NZEB). gov.pt
Em conformidade com a política de clima e energia, o National Energy and Climate Plan 2030 (PNEC 2030) promove a renovação do parque habitacional e de edifícios não residenciais, visando reduzir energia primária consumida, aumentar eficiência e promover a instalação de sistemas renováveis (como fotovoltaicos). Wise Building European Commission
Há incentivos e apoio financeiro (via planos nacionais e de recuperação económica) para melhorar a eficiência energética do edificado. Empresas, associações e centros de formação estão a apostar em formação e sensibilização no setor: por exemplo, a Fundação Mestre Casais promove programas de formação sobre “Construção Sustentável 360º”, abordando materiais, métodos construtivos, economia circular, e certificações ambientais. Fundação Mestre Casais
Projetos-piloto de construção ou reabilitação com critérios de eficiência energética e uso de materiais mais sustentáveis começam a surgir, com enfoque em “edifícios verdes”, eficiência térmica, isolamento, utilização de energias renováveis, otimização de recursos hídricos, etc.
A sensibilização para certificações de sustentabilidade (como certificações energéticas, padrões de construção sustentável, e eventualmente os sistemas de avaliação ecológica) está a ganhar espaço — embora a adoção ainda seja desigual. pt
ECONOMIA CIRCULAR E REUTILIZAÇÃO DE MATERIAIS
Há um crescente interesse por práticas de construção sustentável que envolvem reutilização e reciclagem de materiais, para reduzir a pegada ambiental dos edifícios e diminuir o “carbono incorporado”. EEA Grants Portugal Turismo de Portugal Business
Projetos colaborativos internacionais (com outros países, por exemplo) e intercâmbios de conhecimento têm sido realizados para avaliar e adotar boas práticas de construção sustentável e economia circular no setor da construção português.
PRINCIPAIS DESAFIOS E ALERTAS
Segundo a organização ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, grande parte do parque habitacional português não é eficiente do ponto de vista energético — para alcançar descarbonização efectiva será necessário um investimento massivo, não apenas na troca de equipamentos, mas em renovação profunda das habitações.
A transição exige investimento elevado: a estimativa de custos para modernizar o parque residencial e torná-lo energeticamente eficiente é significativa, o que coloca desafios económicos e de equidade social.
A adoção de práticas sustentáveis nem sempre é homogénea, e muitas vezes depende da sensibilização de promotores, arquitetos, engenheiros e dos próprios utilizadores.
A regulamentação e a implementação de normas (eficiência energética mínima, certificações) continuam em evolução — a necessária transposição de diretivas e adequação do mercado pode levar tempo.
IMPORTÂNCIA PARA O FUTURO DA ARQUITETURA EM PORTUGAL
O caminho para descarbonizar a arquitetura em Portugal passa por uma combinação de esforços: políticas públicas estruturadas; incentivo à reabilitação energética; mudança de mentalidade no setor da construção; adoção de práticas de economia circular; e educação/sensibilização dos profissionais e cidadãos.
Para o gabinete de arquitetura, isto representa uma transição: deixar de pensar apenas no “edifício final” e começar a considerar o ciclo de vida completo — dos materiais, da energia usada, do conforto, da durabilidade, da reutilização — e com isso projetar edifícios mais resilientes, eficientes e alinhados com os objetivos climáticos e não apenas propagar intervenções, ditas verdes e suficientes, em colocar sistema Etics nas fachadas dos imóveis.
REABILITAÇÕES ENERGÉTICAS E PROJETOS NZEB
Desde 2021, todos os novos edifícios em Portugal devem seguir padrões de edifícios nZEB. Muitos projetos focam na reabilitação do stock antigo, como ecovilas com madeira sustentável e isolamento em cortiça ou intervenções apoiadas pelo PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), que reduzem consumos em 20-40%.
Descarbonizar a arquitetura é um imperativo ético e prático. Dos conceitos como edifícios zero emissões à evidência do IPCC e estudos portugueses, vemos que o caminho é viável, mas exige ação imediata. Com dicas práticas, cada um pode contribuir – seja reabilitando uma casa ou projetando um edifício sustentável. O futuro da arquitetura é verde, circular e resiliente.
Em Portugal, a descarbonização ganha contornos específicos devido ao clima mediterrânico e ao envelhecimento do stock edificado. O Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC2050) define metas para o setor: reduzir emissões em 85-90% até 2050, com foco em eficiência energética e renováveis. Definições locais incluem a certificação energética (SCE), que classifica edifícios de A+ a F, incentivando melhorias.
Estes conceitos não são abstratos; interligam-se. Por exemplo, um edifício "verde" pode ser certificado por sistemas como LEED ou BREEAM, que avaliam não só emissões, mas também impacto ambiental global. A chave é uma abordagem integrada: desde o design inicial até ao fim de vida.
Em termos de barreiras, um estudo recente identificou 95 obstáculos sociotécnicos à descarbonização, incluindo custos iniciais altos, falta de incentivos e resistências culturais. No entanto, a evidência é otimista: tecnologias como bombas de calor, painéis solares e materiais de baixa emissão já estão maduras e economicamente viáveis. Por exemplo, a integração de digitalização – como sensores IoT para otimizar energia – pode cortar emissões em 20-30%.
Em Portugal, os dados são alarmantes, mas promissores. Cerca de 70% dos edifícios residenciais não são eficientes energeticamente, contribuindo para emissões anuais elevadas. Um estudo da associação Zero estima que descarbonizar o stock residencial custará mais de 26 mil milhões de euros até 2050, mas gerará poupanças a longo prazo e empregos. Evidências do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) mostram que investimentos em reabilitação energética reduziram consumos em 20-40% em projetos-piloto.
Globalmente, relatórios como o do Urban Land Institute (ULI) defendem 10 princípios para descarbonizar o ambiente construído, incluindo rastreio de emissões em carbono em vez de só energia. Estudos sobre edifícios existentes revelam que retrofits – como adicionar isolamento e sistemas renováveis – podem reduzir emissões operacionais em 50-70%. Em contextos urbanos, micro-redes energéticas locais emergem como solução para resiliência e descarbonização.
VAMOS FALAR DO SEU PROJETO?

